
Esta foto foi escolhida por ser umas das imagens que me mudou literalmente a maneira de ver a vida, a minha maneira de ver a arte, e a criar um novo conceito de beleza baseado no grotesco.
Nesta foto iniciei a minha identidade artística, usei-a como imagem base dum quadro que fiz inspirado na Alice no Pais das maravilhas, sendo esta, a minha Alice.Esta foto resulta como um espelho da alma de cada um. Quando eu exponho esse quadro os receptores exteriorizam em mim aquilo que de mais inconsciente se passa dentro de si, uma senhora v.i.p. uma vez disse-me que a imagem era sobre cirurgia plástica, um viúvo disse ser sobre a morte, uma criança disse que era o diabo, um comediante disse que era o Michael Jackson. Pois, para mim, a Alice é tudo isso, pois é o espelho da alma, o espelho da aberração, que nos desnuda duma maneira directa por vezes chocante, embora não seja essa a minha ideia. Não pretendo chocar nem ferir susceptibilidades mas sim contemplar a beleza na imparidade, deformidade e diplomacia de todos os seres impares do nosso universo.O olhar profundo da Alice… a sua actuação é menos fingida do que a de qualquer outro actor… ela não pode esconder a sua condição diferente que a identifica como impar ao primeiro olhar.
Ela torna-se o espelho da nossa condição e é isso que nos perturba. A sua imparidade confronta-nos com a indefinição da nossa própria diferença. “Ela representa não o Outro mas o Eu secreto”.
A sua condição humana suscita uma confusão na nossa identidade. há um carácter macabro na assunção de que ela têm de ser mantida longe do olhar comum. Que pode ela provocar? Que nojos podem pessoas com comportamento moral irrepreensível causar ao vulgo humano?
Esta fotografia remete para a Arte do Avant garde. Este tipo de Arte procura baixar a fasquia do que é terrível na Arte, o que é chocante, doloroso ou embaraçante de observar ou mesmo participar. Ao transgredir sempre os limites morais do terrível e chocante a Arte permite-nos confrontarmo-nos com o terrível da vida de forma a adormecermos os sentidos.
A nossa inquietação diante do estranho só é possível porque ele nos leva de encontro a algo familiar que ficou esquecido, adormecido, calado no inconsciente. Não é raro que diante da fotografia o primeiro impulso seja o de afastar o olhar, “não queremos ver”, para em seguida, querermos “ver” no sentido pleno de “olhar” (sentir o que se passa no nosso interior).
Para mim vejo esta imagem como um equivalente fotográfico ao que a Beat Generation como Kerouac, Ginsberg and Burroughs falavam nos seus livros: substância no limite (‘substance on the edge’).
Alice está perto da morte, vê-se nos seus olhos, na sua presença, na sua doença, e confronta-nos brutalmente com a evidência de que toda a gente morre sozinho.
Ela atrai pela sua presença forte, a presença de quem está prestes a passar para o desconhecido, de quem está a enfrentar a morte de cabeça erguida e olhos profundos, representa o cumulo da coragem e o culminar dos nossos medos mais profundos. Ela, na situação em que se encontrava quando foi tirada a fotografia era uma rara extravagância e “trata-se de um comportamento comum entre os humanos que, quando viu algo de maravilhosamente extravagante, o mostra aos vizinhos ou àqueles que encontra.”
Ela é excesso de presença. As anomalias sempre tiveram um carácter positivo porque justificam a criação de uma categoria de criaturas à parte, onde o excesso e a falta são sempre excesso de presença
Nós só temos a possibilidade de nos reconhecermos como “normais” porque o freak nos serve como parâmetro de diferença. “Os homens precisam do monstro para se tornarem humanos”. Esta é uma forma de explicar o facto da fotografia nos pôr em contacto com a nossa humanidade.
"I work from awkwardness. By that I mean I don't like to arrange things. If I stand in front of something, instead of arranging it, I arrange myself" - Diane Arbus
“There is a quality of legend about freaks. Like a person in a fairy tale who stops you and demands that you answer a riddle. Most people go through life dreading they will have a traumatic experience. Freaks were born with their trauma. They have already passed their test in life. They are aristocrats”.
Toda a gente morre sozinho é uma das frases mais contundentes da nossa cultura, que define uma parte da nossa essência. A verdade é que toda a gente também vive sozinho, e se define enquanto ser humano nessa solidão. Os olhares profundos dos deficientes, são as suas características diferentes e a maneira como as ultrapassam numa vivência saudável… a sua actuação é menos fingida do que a de qualquer outro actor… eles não podem esconder a sua condição diferente que os identifica como impares no primeiro olhar. Na Contemporaneidade pós-cartesiana cada um de nós vive no limbo da sua individualidade, repartido entre a necessidade de se definir na identificação com um determinado grupo e na de se distinguir dos seus pares de forma a encontrar o seu “Eu”.
FóMóiRé & ALiCeTexto by
O FóMóiRé: Francisco Peres & ShEEnA: Catarina Miguel
