Mute Short FIlm Sound Design
Escola Superior de Teatro e Cinema
2009/10
Produção de Musica para Cinema
Professor João Lisboa
Desenho de Som de um filme mudo
Depois de estudadas as várias possibilidades de trabalho, decidi escolher o filme mudo que mais hipóteses me dava de variar os ambientes sonoras mais drasticamente, para desenvolver as minhas capacidades de comunicar com o espectador diferentes estados de espírito e emoções, através da musica e do som de fundo.
O filme que escolhi foi o “A film from the collection of Daniel Luma”, um clip onde vemos vários espectáculos de Vaudeville completamente distintos onde através do som consegui criar diferentes “moods”. Enquanto a musica original do filme se esforçava para criar uma continuidade entre as diferentes cenas, eu dispus-me a fazer exactamente o contrario.
Em cada cena usei tanto som de fundo captado por mim como musica pré existente para orientar a atenção do espectador às minhas intenções conceptuais, vou escrutinar o filme cena a cena para uma melhor analise pontual e por fim uma breve conclusão para falar sobre o todo.
Comecei por usar o som de projector como som de fundo para remeter o espectador à época do filme logo na primeira cena, usei uma musica clássica bastante calma, para albergar as imagens da crianças a atirar objectos brancos para dentro de água intercaladas com imagens imperceptíveis de objectos redondos e de um titulo de um possível espectáculo sobre o maravilhoso mundo da natureza, escolhi esta musica por ser quase angelical, visto que as crianças estão vestidas de branco e o fundo é preto, fiz por construir uma atmosfera contemplativa e ao mesmo tempo intimista.
Como som de fundo usei o som de crianças a brincar no jardim zoológico do Bronx
som que captei em Nova York na minha estadia entre Janeiro e Fevereiro de 2010, criando ao espectador a ilusão de som directo e uma associação inconsciente às memorias sonoras de visitas a um zoo.
Na segunda cena, a cena do “mágico”, usei como banda sonora um tema de country com influencias blue grass de interprete desconhecido, escolhi usar este estilo de musica depois de experimentar variados outros estilos como o blues, a musica circense ou musica cigana, mas o country/blue grass foi o som que achei que melhor se adequava visto que o ritmo cria uma sensação de constância e de alegria constante. O som de fundo desta cena foi meticulosamente criado a partir de sons captados em Nova York no Battery Park onde um vasto grupo de pessoas assistia a diferentes performances de rua. Decidi usar o som de risos sintéticos gravados em pós produção para sublinhar o conteúdo cómico-burlesco da cena, elevando a cena para um ambiente mais caricaturista onde o espectador é quase forçado a rir ao assistir à comedia física do “mágico” ilustrada pelos risos estéticos “enlatados” muitas vezes usados em sitcoms ou em sequencias cómicas em programas televisivos, as salvas de palmas servem o propósito de por um ponto final na cena embora escolhesse fazer um corte abrupto de passagem desta cena para a próxima para ajudar o espectador a perceber que cada cena tem o seu ambiente distinto.
A terceira cena é um cartoon repetitivo onde ouvimos mais uma vez a assistência de Battery Park, desta vez escolhi ter o som de fundo muito mais presente, fazendo por continuar a criar a noção de espectadores presentes nas cenas em fora de campo, usei mais um som ou outro pontual para “Mickey Mousear” algumas acções do cartoon como o som de um quando vemos o animal a fugir e um gemido de dor quando o gigante leva com a moca na cabeça, marcando o fim da cena, mais uma vez com um corte abrupto para a próxima cena. A musica que escolhi depois de várias tentativas falhadas, foi a de um cartoon desconhecido dos anos 20, escolhi esta musica especificamente porque a sua cadencia dá um ritmo ao filme, tentei encontrar uma musica que colasse bem com o ritmo dos passos do gigante para passar uma noção de peso.
A quarta cena foi a que mais polémica causou na sala de aula, embora eu ter usado uma musica bastante diferente do resto das outras cenas, eu fi-lo com consciência e usei o som de fundo para criar uma homogeneidade sonora realista de sensação de espectadores presentes na acção fílmica onde vemos umas cabras montês a subir e a descer uma rocha. O som de fundo é composto por som captado por mim em New Jersey no Carnivale itinerante da zona, usei o som de uma montanha russa para colar com o subir e descer das cabrinhas nas rochas. Quanto à musica, decidi-me escolher uma musica simplista de dedilhado de guitarra com o intuito de demarcar a calma e o marasmo que esta cena é comparando com o resto das cenas. Inspirei-me nas sequencias de corte de programas infantis como a Rua Sésamo ou o Jardim da Celeste, cenas essas onde a musica ilustrava a cena de forma a acalmar o espectador e a criar um momento de respiração entre cenas mais frenéticas, mais uma vez resolvi fazer um corte abrupto de forma a criar um choque na passagem desta cena para a seguinte.
A quinta cena, a cena onde vemos cangurus a saltar em velocidade normal e em câmara lenta, usei o didgeridoo como banda sonora musical para remeter o espectador a paisagens australianas, visto o didgeridoo ser o instrumento nacional aborígene, este instrumento resulta muito bem tanto em velocidade normal como quando aumentei o pitch / velocidade para ilustrar a imagem em câmara lenta, o som deste instrumento, visto ser bastante vibrante resulta na perfeição criando ao espectador uma falsa sensação de sincronismo com a imagem. Como som de fundo usei as minhas três captações de ambientes de multidão com crianças, subrepondo-os e criando assim um novo som de ambiente composto pela fusão dos três sons anteriormente usados captados por mim no Zoo do Bronx, no Battery Park e no Carnivale de New Jersey. Deixei a musica da cena anterior escapar-se subtilmente para esta cena embora tenha reduzido drasticamente o som para não estragar a noção de contraste criada até então, como o pitch foi manipulado não se dá conta ser a mesma musica.
No inter-titulo onde podemos ler “his tail is an exta support when standing, thus enabling him to use his fore limbs in man-like fashion.” Usei a musica da cena das cabras, ou seja, voltei a remeter o espectador para uma calma momentânea ao aumentar o volume de som para poder criar um choque entre este calmo inter-titulo e a cena final do filme.
A sexta e final cena do filme foi a que me deu mais gozo fazer a faixa sonora, nesta cena vemos um homem de chapéu a lutar com um canguru, com filmagens em velocidade normal e em câmara lenta. Neste segmento usei o som que captei num comedy club em East Village, onde dois actors encenavam um combate de boxe, o som que captei no Madison Squase Garden de um jogo da NBA (Minnesota Timberwolves vs New York Knicks) para criar a noção de espaço, embora a cena do filme seja ao ar livre achei interessante transformar a sequencia da luta entre o homem e o canguru num combate de boxe real, usando uma musica épica para elevar o combate a um expoente mais intenso e cativante do ponto de vista do espectador. Nas partes em câmara lenta manipulei o pitch / velocidade o que tornou a cena bastante dinâmica e intencionalmente cómica.
A meu ver no geral, o filme ficou bastante interessante a nível sonoro, o design de som foi preciso e eficaz pondo o espectador no plano subjectivo do filme, passando de segmento em segmento como um espectador de vários espectáculos de vaudeville, com um apontamento ou outro de som sintético para dinamizar as cenas entre si.
